O gato de Biarritz, pelo et(h)eriano Rui Azeredo

Algures no início deste século (ou milénio, se preferirem) encontrámos em Biarritz este gato, tal como o veem, e estragámos-lhe o dia. Foi sem querer, naturalmente, mas aconteceu mesmo. Aninhado no algodão fofo da montra da loja, entre brinquedos com os quais tão bem combinava, protegeu-se do frio de um dia de sol de inverno e acolheu de bom grado o calor que emanava do vidro. Encaixado entre o cão de madeira, o avião, os trenós, o peluche e as flores, o Gato de Biarritz parecia ele próprio um elemento decorativo. De tal forma que, entrando na loja, comentámos com o dono da loja que “le chat” ficava muito bem na montra. “Gato? Que gato?”, questionou o homem, típico dono de loja requintada de antiguidades, ou pelo menos tal como os imagino, com o seu lenço ao pescoço. Correu para a montra e enxotou prontamente o gato que, percebi então, era simplesmente um invasor. Desolados, e com a lição aprendida, saímos para a rua, onde nos cruzámos com o gato, que nos ignorou, nem sequer bufando, como era merecido. Fomos embora, na esperança de que ele ocupasse outra montra. Dado que, apesar do seu ar sonolento e passivo, nos pareceu um gato bem tratado, convenci-me de que ele iria encontrar outro pouso, de preferência onde não viesse um idiota estragar-lhe o descanso.

História verdadeira tanto quanto a memória me permite.

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