Entrevista exclusiva ao Et(h)er, com Paulo M Morais

 

Olá Paulo.

Falar contigo é sempre especial, sabes disso.

Porque nos conhecemos de uma forma muito particular, mas porque descobrimos que temos muitos gostos em comum (a música do Wim Mertens) e mantemos um contacto à distância, sem compromissos nem obrigações… como devem ser os amigos.

Por isso é um enorme prazer ter-te no Et(h)er.

Grato.

Falar de ti.

Nasceste no melhor mês de todos (risos). Em Lisboa. Licenciaste-te em Comunicação Social e trabalhaste em revistas e portais de internet. Escreveste critica de cinema.

Mas houve um momento que quiseste ir à descoberta. Mochila às costas e foste. Mundo fora.

Voltaste para te especializares em comida e turismo.

Já fizeste e fazes traduções e escreves. Já sei que plantaste também uma árvore.

E começo aqui,

Acreditaste em certa altura da tua vida, encontrares a máxima, pai, escritor e uma arvore plantada?

É difícil fugirmos aos clichés que marcam as nossas vidas. O completar dessa trilogia acaba por ser mais uma curiosidade do que algo com grande profundidade. Cada um desses atos — ter um filho, escrever um livro, plantar uma árvore –, vale por si.

 

Quem é o Paulo escritor?

Julgo que é a mesma pessoa que não é escritora. Ou seja, penso que a minha escrita reflete muito a pessoa que sou.

 

Tu que já conheceste tanto pelo mundo e viveste tantas experiencias, boas e menos boas, achas que a tua escrita reflete muito do que tens sido?

Metade dos meus livros baseia-se em experiências reais, pelo que me sinto bastante espelhado nalguns dos livros que escrevi. Alguns tiveram mesmo como fundo uma busca da verdade, sobre mim e sobre os outros, embora eu saiba que essa verdade é sempre subjetiva, parcial, incompleta. Parte dos meus livros acaba, por isso, por ser também uma tentativa de conhecimento do que sou e da influência dos outros em mim.

 

E falo de uma experiencia em especial. O cancro. Escreves um livro “Uma parte errada de mim”. Sentes que somos duas partes e somos fruto desta dicotomia meio religiosa, do bom e do mau?

Não. Nesse sentido o título poderá induzir em erro. Julgo que somos sempre múltiplos. Sou capaz de praticar o bem e também o mal. Muitas vezes trata-se apenas de uma questão de escolha. Noutras, a questão torna-se mais complexa. Ou seja, não acho o ser humano nada simples, nem divisível em maniqueísmos. Por isso, tendo a construir personagens ou livros que se movimentem numa área cinzenta.

 

Tens uma obra bastante diversa. Desde a Revolução dos Cravos, passando por uma historia do fim da literatura, e depois dois livros em que abordas a doença e a morte. O que procuras provocar no leitor com a tua obra?

Não parto para um livro com intenções em relação ao leitor. Parto porque me parecem histórias que gostaria de contar a alguém e, como não sou um bom contador de histórias orais, acabo por escrevê-las. Muitos dos meus livros tratam do tema da memória. Há pessoas, acontecimentos, épocas, experiências que, para mim, merecem ser recordados e, quem sabe, preservados no tempo.

 

Conta-nos resumidamente como foi essa experiencia na Escola da Ponte, de onde escreveste o fabuloso “Voltemos à escola”.

Foi uma experiência única de poder conviver quase diariamente com um conjunto de pessoas (alunos, professores, auxiliares de educação) extraordinárias. Acabou por ser um livro também de afetos, alguns dos quais se mantiveram após a publicação do livro.

 

Como escritor, sentes que tens um certo “poder” de deixares algo na consciência das pessoas?

Não. Para mim a escrita funciona como um ato de comunicação. Um livro é como uma conversa que se estabelece entre mim e o leitor. Se essa conversa, essa história que quero contar, tiver algum impacto no leitor, ótimo. Mas tento sempre fugir de escrever livros de doutrina.

 

Uma pergunta que os leitores adoram sempre ver respondida…a inspiração. Onde anda a tua?

Mas nunca tive muita dificuldade em inventar histórias ou personagens para os temas que queria abordar. Tenho várias ideias que poderiam dar romances. Contudo, ultimamente inspiro-me muito nas pessoas que me rodeiam. Ou nos antepassados que nunca cheguei a conhecer. Às vezes as melhores histórias podem estar mesmo ao nosso lado e nós não as vemos.

 

E como leitor, o que esperas de um livro?

Escolho os livros consoante o meu estado de espírito, o tempo disponível, a minha vontade momentânea, as necessidades de pesquisa. Tenho sempre quatro, cinco, seis livros começados. Também há muitos que ficam a meio, à espera do momento certo para serem terminados. Cada livro pede-me uma coisa. E, se eu o quero ler, tento adaptar-me a isso. Lê-lo nos momentos certos.

 

Para terminar, gostava de te lançar dois desafios,

Tens neste momento uma criança à tua frente que deseja perceber a tua obra. Como a explicas, escritor Paulo M Morais?

Não gosto de explicações. Preferia encontrar uns excertos adequados à maturidade da criança e lê-los. Podia ser que, dessa forma, ficássemos amigos e, mais tarde, teria todo o gosto em tentar responder-lhe às perguntas que ele me quisesse fazer.

 

Nomeio-te a director da livraria do Et(h)er. Tens uma encomenda para fazer para o verão que se aproxima. Que livros queres encomendar como imprescindíveis?

“Rio do Esquecimento” e, sobretudo, “A Febre das Almas Sensíveis”, ambos de Isabel Rio Novo. Podia ser apenas por ser a minha mulher. No caso, não é. É uma das grandes escritoras da nova geração. Depois, uns clássicos de Raul Brandão e Eça de Queiroz. A minha costela açoriana faz-me pensar nos monumentais “Gente Feliz com Lágrimas”, de João de Melo, e “Mau Tempo no Canal”, de Vitorino Nemésio. Lá de fora, Sebald, Cercas, os Paul Auster vintage, Cormac McCarthy. O problema das listas de livros é que são sempre incompletas, injustas, e em constante mutação.

 

Grato pela entrevista, muitos Parabéns.

Bom Caminho com boas escritas e óptimas leituras. E aguardamos mais pelo Paulo M Morais.

 

 

NOTA: Esta entrevista é redigida sem cumprir os requisitos do acordo ortográfico, por parte do Et(h)er dos dias. As respostas de Paulo M Morais são com o novo acordo ortográfico.

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